Cap 5


Capitulo Cinco

Não sei quanto tempo fiquei fechada no quarto, mas eu tinha as perguntas e Arlene tinha as respostas. Eu não sei quando Ariel vai aparecer, mas sei que não vou conseguir fazer as perguntas para ele. Respirei fundo e sai do quarto e, como prometido, Arlene estava na sala, ela falava ao telefone, fiquei encostada na parede, esperando que ela acabasse seu telefonema.

- Sim, ela esta aqui. – Ela dizia quando me aproximei mais da sala. – Sim, ela é linda, mas não é para o seu bico, se comporte Apollo. – ela ouviu a resposta. – Sei tanto quanto você da missão dela, Ariel não me deu nenhum detalhe a mais, só espero que não seja uma coisa muito complicada, pobre criança, solta no mundo humano sem um pingo de preparo. – Ela ficou em silêncio. – É claro que me preocupo com ela, como me preocupei com você quando você – Arlene virou a cabeça e me viu lá parada. – Oh, eu tenho que desligar Apollo, esteja aqui em quarenta minutos. – E ela desligou. – Não é educado ouvir a conversa alheia, você sabe disso, certo?

Senti meu rosto esquentar. – Eu não... eu não queria ouvir, você me disse para vir aqui caso quisesse respostas e eu as quero.

Ela me avaliou da cabeça aos pés, senti minha garganta secar, então Arlene sentou-se no sofá e me indicou a poltrona a sua frente, me sentei, me preparando para fazer perguntas.

- O que você quer saber primeiro? – Ela perguntou quando fiquei em silêncio.

- Como... – hesitei tentando colocar meus pensamentos em ordem. – Como é possível você conhecer Ariel?

- Ele é um velho amigo.                         

- Mas ele... – como dizer isso a ela sem que ela fique muito chocada. – Ele não é humano.

- Eu sei. – Arlene deu de ombros.

- Então você é desses humanos especiais? Aqueles que podem ver e falar com anjos, fantasmas e outras coisas?

- Não, Anja, eu não sou nada disso. Eu sei sobre Ariel e sobre você por um simples motivo. Eu já fui como vocês. – Ela sorriu com tristeza. – Eu já fui uma anja e usei do livre arbítrio para me deixar cair e me tornar humana.

Assim que as palavras dela bateram e se registraram em meu cérebro, me veio à imagem da armadura de Ariel. A estrela de David quebrada ao meio, o símbolo angelical para um pupilo caído. Os anjos que decidiram cair por seus próprios motivos, inúmeros deles. Eu nunca entendi como um anjo larga tudo lá no céu, para virar humano. Ariel nunca fala sobre os seus pupilos perdidos, me lembro que sua armadura possui duas estrelas partidas, ele é o arcanjo com menos perdas, somente duas, mas duas que foram significativas para ele. Talvez seja por isso que ele sempre foi muito cuidadoso comigo. Ariel sempre amou seus pupilos como se fossem seus filhos e a perda de dois deles, não marcou somente sua armadura, mas também sua alma de anjo.

- Por quê? – Eu perguntei, minha voz não passava de um mero sussurro, senti uma emoção humana tão forte, que fez com que minha voz falhasse; tristeza. Tristeza por Arlene, minha irmã celestial, que escolheu viver como humana, desistindo de tudo e por Ariel que eu sei que sofre ate os dias atuais pela perda de seus filhos.

 - Pelo o mesmo motivo que a maioria de nós caímos, – ela sorriu novamente, mas dessa vez com alegria nos lábios. – Por amor.

- Amor? – Perguntei confusa, o único amor que conheci foi o amor dos meus irmãos celestiais e de Ariel.

- Isso mesmo, Angie. O amor que desperta entre nós anjos e nossas missões.

- Foi o que aconteceu com você?

- Sim, foi exatamente o que aconteceu comigo.

Ficamos em silêncio, ambas perdidas em seus próprios pensamentos, quando Arlene voltou a falar, foi como se ela estivesse aqui presente somente em corpo, seu espírito estava no passado.

- Joe foi uma das minhas missões, não era a primeira vez que eu vinha pessoalmente cuidar de um humano adulto, na verdade, a minha missão com ele era muito simples; eu tinha que ajudá-lo a encontrar o caminho da fé. Esse tinha sido seu pedido, que de tão simples, foi atendido. Eu era muito arrogante naquela época, me julgava a melhor dentre todos, me achava no direito de ser promovida a arcanjo, já que nunca tive nenhuma falha em minhas missões. Mas eu nunca imaginei que fosse me depara com um humano como ele. – Ela olhou para um ponto distante na estante da sala. – Em nenhuma das minhas outras missões eu tinha me deparado com tamanha beleza, foram seus olhos acinzentados que me prenderam primeiro, depois sua inteligência, sua bondade, suas piadas, seu jeito espontâneo, – ela suspirou, – o melhor ser humano que encontrei em doze milênios, totalmente desprovido de egoísmo e maldade. Um homem bom com todos e que nunca esperou nada em troca, ele estava um pouco perdido, acreditava em Deus, mas tinhas suas duvidas e, as duvidas o cegaram para sua fé. Minha missão seria fácil, Joe somente precisava de um pequeno incentivo, mas me vi cada vez mais próxima a ele, não enxerguei o perigo da nossa proximidade chegando e, quando vi, já era tarde, eu o amava e ele a mim. Foi então que decidi cair, eu não conseguia ser feliz sem ele.

Olhei mais atentamente para o ponto que ela estava focalizada e vi um porta-retratos, Arlene olhava para o seu humano enquanto me contava sua estória. Me levantei e caminhei ate aquela foto, nela havia retratado um casal com largos sorrisos, uma Arlene mais jovem sorria olhando para ele, enquanto ele olhava para o fotografo. Joe, com seus lindos olhos acinzentados, cabelos pretos cortados bem curtos, um humano muito alto, tinha o braço ao redor dos ombros da jovem Arlene.

- O que aconteceu com ele? – perguntei enquanto olhava para a foto.

- Ele morreu há seis anos.

Morreu? – pensei. Ela fez tudo aquilo, desistiu de tudo para se tornar mortal e o seu humano morreu?

- Passamos quase vinte anos juntos. – Ela disse, respondendo a uma pergunta não feita. – Foram os melhores vinte anos da minha existência, eu não mudaria nada se me fosse dada a chance de recomeçar, eu teria caído por ele de novo, de novo e de novo. Prefiro ter passado vinte anos sendo a mais feliz das mulheres, do que mais doze milênios me perguntando como teria sido se eu tivesse me deixado cair.

Olhei em seus olhos e ela também fixou os seus olhos nos meus, não vi arrependimento, o que vi foi somente uma anja caída, que ainda ama seu humano de todo o seu coração, e todas as suas palavras foram ditas com convicção, ela faria de novo e não se arrependeria em nenhum momento.
Um som estranho nos tirou do nosso transe, pisquei e olhei para o chão, espiando Arlene pelo canto dos olhos. Ela se levantou suspirando e foi até a cozinha.

- Sim? – Eu a ouvi dizer. – Ah é você, pode subir.

- E como Ariel entrou em contato com você?

- Por sonhos, - Arlene falou voltando para a sala. – Ele me visita em meus sonhos, mesmo depois que cai, ele continuou a conversar comigo quase todas as noites. Ele está muito preocupado com você, por isso pediu a minha ajuda. – Ela olhou para o meu pingente do Chamado. – O meu se quebrou durante a minha queda – ela apontou para o meu colar, – quando acordei, já humana, ele estava aos pedaços no chão ao meu lado.

Arlene foi para a porta da frente e a abriu de repente, um homem estava parado do lado de fora com a mão levantada, como se ele estivesse prestes a bater na porta. Ele sorriu para ela e abaixou a mão, o primeiro homem humano que eu estava vendo tão de perto. Ele é muito bonito, olhos verdes, cabelo preto com alguns fios branco nos dois lados de sua cabeça, nariz reto, ele usa o que os humanos chama de ‘cavanhaque’ bem baixo, como se ele tivesse pintado a lápis.

Ele deu um beijo no rosto de Arlene e então seus olhos fixaram-se me mim, seu sorriso aumentou e ele entrou.

- E você deve ser a Anja, ou como Arlene me contou, Angie. – Sua voz é grave, ele me olhava dos pés a cabeça. Senti meu rosto pegar fogo quando seus olhos se focaram em meus seios, cruzei meus braços por cima deles. Ele sorriu ainda mais e voltou a olhar em meus olhos. – Eu sou Apollo. Agora eu entendi porque Ariel está tão preocupado com você.... olha só para a cor desses olhos.

- Você também é um dos caídos?

Apollo olhou para Arlene, ela acenou com a cabeça.

- Sim, eu sou um dos caídos. – Ele se sentou onde Arlene esteve sentada durante a nossa conversa.  

- E você também caiu por amor a uma humana?
Apollo jogou a cabeça para o trás e riu muito alto.

- Sim, eu cair por amor, mas não por Uma humana, mas sim, por amor a Todas elas.
Ele sorriu abertamente para mim, mas eu continuei a fitá-lo sem entender suas palavras e, se suas palavras foram o que os humanos chamam de piada, eu não achei graça.

- Angie, Apollo vai lhe dar um emprego na livraria dele. – Arlene se aproximou de mim. – Ariel nos disse que você precisa de um emprego para a sua missão e nenhum lugar é bom o bastante como uma livraria para você observar e aprender a como ser uma humana.

- Na verdade vim buscá-la para conhecer seu local de trabalho. – Apollo disse se levantando. – Hoje vou levá-la de carro, mas amanha você vai de metrô, não tenho como te dar carona todos os dias, Arlene vai te ensinar o caminho. Vamos?

- Você vem junto? – Perguntei a Arlene, eu não gosto do jeito que Apollo me olha, é como se ele estivesse prestes a pular em mim, talvez eu não consiga confiar nos homens humanos.

- Claro – Arlene responde. – Eu não sou louca de deixar você sozinha com ele. E pare de olhar para ela assim Apollo, ou Ariel jogará um raio na sua cabeça, ele já deixou bem claro isso. Anja não está aqui para ser mais uma de suas conquistas e sim para uma missão, comporte-se.
Apollo riu, levantou do sofá, andou ate a porta da frente e a abriu. – Espero vocês no corredor. – E fechou a porta.

 - Ele não pode ver um rabo de saia, não se preocupe, ele é como um cão que só ladra, mas não morde. – Arlene riu. – E ele tem medo de Ariel.

- Por quê? – Perguntei intrigada, Ariel sempre foi tão gentil, nunca vi ninguém com medo dele.

- Porque quando Ariel promete, ele cumpre. Ele prometeu jogar um raio na cabeça de Apollo se ele tentasse algo com você e só um tolo duvidaria de uma promessa feita por um arcanjo.

- Ele também se comunica com Apollo por sonhos?

- Sim.

- E será assim comigo também?

- Não sei – Arlene olhou novamente para o meu colar. – Você tem o pingente do Chamado, era assim que nos comunicávamos quando eu era sua pupila. Vamos, antes que Apollo comece a tocar a campainha sem parar.

Saímos do apartamento e Apollo estava falando com a vizinha de Arlene, ele estava quase entrando no apartamento da outra humana, ela por sua vez, estava com o rosto corado e inclinava-se para frente, dando a Apollo visão total do seu decote.

- Bom dia Regina. – Arlene falou aproximando-se deles. – Essa é Angie, minha sobrinha, ela vai morar comigo por algum tempo.

- Oi Angie.

- Oi. – Respondi timidamente.

- Vamos Apollo. – Arlene o puxou pelo braço.

- Até mais Regina. – Apollo piscou um olho para ela, Regina ficou com o rosto do vermelho.

- Até mais Apollo. – Regina respondeu toda derretida.

Entramos elevador, Arlene e Apollo se olharam e falaram ao mesmo tempo.

- Safado.

- Chata.