Capitulo Quatro
No carro nós permanecemos em silêncio, eu estou pensando na comida, poxa vida, os humanos comem bem, eu poderia comer bacon, torrada, panqueca todos os dias. Eu ainda conseguia sentir o gosto doce da panqueca na minha boca, me perguntei se quando retornasse para o céu, se eu sentiria falta da comida. É muito boa, não posso me queixar, isso porque eu ainda não tinha provado tudo, será que daria tempo de fazer isso? Talvez não, mas eu quero tentar. Suspirei pensando no humano alvo da minha missão, eu ainda tenho algumas semanas para encontrá-lo onde foi escrito que seria, eu tenho que usar esse tempo para aprender a – pelo menos, parecer – uma humana normal.
Suspirei. É tanto a aprender e o tempo é tão curto. Eu senti outra emoção surgindo dentro de mim; frustração.
Fechei meus olhos, me lembrando do que li em seu desejo.
“- Ai meu Deus! O que eu faço? O senhor tem que me ajudar, eu não posso perder a minha empresa. – Ele respirou fundo. – Esse contrato com os italianos é muito importante e eu não consigo ter uma ideia que preste. Como posso ser um publicitário sem ideias, e como vou ter Paula de volta sem que minha empresa volte a ficar estável, ela odeia instabilidade por isso me deixou. Por favor, me mande uma luz. – Ele pediu com muita fé no coração.”
E seu pedido foi atendido, eu sou a sua luz. Minha missão é ajudá-lo, não fazer por ele, voltar a ter ideias e a reconquistar sua noiva. Alexsander Andrews, esse é o nome da minha missão, mas Ariel me ensinou a não me referir a ele por seu nome, porque assim eu não me apegaria a ele, por isso Alex, como os amigos o chamam, é para mim minha missão, nada mais do que isso.
O carro parou de se movimentar e ser envolvida por uma escuridão me tirou dos meus pensamentos, olhei para Arlene e então para tudo a minha volta. Estamos agora em algum lugar escuro e gelado, mesmo com a porta fechada eu consigo sentir a forte corrente de ar que vem do lado de fora, por todo esse lugar a outros carros parados.
- Chegamos. – Arlene diz soltando o seu cinto de segurança e abrindo a porta.
Corro para acompanhá-la, tenho medo de me perder à única humana que conheço.
- Chegamos onde? – Pergunto. A minha primeira pergunta em milênios, nunca me atrevi a fazer perguntas a Ariel antes, não que ele se mostrasse contra algum tipo de pergunta, mas uma vez que somos ensinados a não questionar nos adaptamos essa regra.
Arlene pareceu satisfeita com a minha pergunta. – Chegamos ao meu apartamento, moro aqui desde... – Arlene hesitou, – desde sempre.
Subimos alguns degraus, saindo do lugar escuro e frio. Passamos por um homem dentro de uma pequena casa ao lado do portão, ele cumprimento Arlene com entusiasmo, Arlene me apresentou a ele como sua sobrinha e, ele logo dirigiu sorriso bem aberto para mim, mas seu sorriso morreu gradualmente quando não correspondi. Eu não sei como fazer isso, sorrir, eu não consigo fazer com que os músculos do meu novo rosto me obedeçam e imitem a atitude do humano.
- Ela é muito tímida. – Arlene tentou justificar a minha não-sei-sorrir para ele. – Ela passou a vida no interior, em uma fazenda muito, muito isolada.
Ele acenou em entendimento e sorriu novamente para mim novamente, desta vez havia piedade em seu sorriso. Ele entregou a Arlene alguns envelopes, ela agradeceu e me levou para dentro do prédio. Chegamos onde os humanos chamam de hall de entrada, Arlene está distraída olhando os envelopes, mas apertou o botão do elevador, sim eu sei o que é um elevador, algumas vezes as crianças das minhas missões me levavam para brincar no parque de seu prédio, eu nunca entrei em um, nunca precisei e agora o mesmo pânico que senti no aeroporto voltava com força total. Como será ficar dentro daquela caixa estranha, sendo içada por um cabo que pode ser rompido a qualquer momento, eu sou humana agora, será que agora eu sou mortal?
Fiquei olhando para os números piscando, marcando os andares enquanto o elevador descia em alta velocidade e meu pânico somente crescia. Não achei que fosse possível, mas talvez eu estivesse me tornando humana a cada hora que estava em companhia de Arlene. A luz ascendeu na letra “T” e a porta se abriu, vi meu reflexo no espelho, nele pude ver que, apesar do meu pânico interior, meu rosto não demonstrava nada, meus olhos não estavam arregalados, minhas feições não estão contraídas, minha respiração não esta acelerada. Eu não demonstrei que estava com medo de entrar ali, eu não consigo expressar em meu rosto o que estou sentindo por dentro, minha missão nem havia começado e eu já estava fracassando.
Ainda distraída com os envelopes, Arlene entrou no elevador, mas somente quando a porta estava se fechando ela percebeu que eu ainda estava parada do lado de fora. Ela reabriu a porta.
- Você não vem?
- Não. – Respondi negando com a cabeça, olhei de relance para o meu reflexo e vi o mesmo rosto limpo de emoções como antes.
- Por quê?
Não quero admitir que estou assustada, em pânico ou seja lá como se defina o que estou sentindo desse momento, olhei ao redor procurando por outras alternativas.
- Você está com medo? – Arlene adivinhou, não sei como ela fez isso, eu continuo a sentir meu rosto congelado, sem expressão.
Olhei novamente ao redor, atrás de mim havia uma porta com uma placa que está escrito, “Escadas,” essa é a minha melhor oportunidade de fugir do terrível elevador.
- Qual é o seu andar? – Fiz minha segunda pergunta em apenas um dia na Terra, espero que eu não me acostume a isso, ou posso ter problemas quando voltar para casa.
- Você acha que consegue subir de escada ate o sétimo andar? – Arlene perguntou. Eu não sei o que responder, estou insegura, nunca me senti assim antes, é tudo tão novo e tão bizarro. – Venha Anja, não tem o que temer, eu vou estar aqui com você.
Quando ela falou assim me lembrou tanto meu tutor, Ariel, ele sempre foi tão seguro de si, sempre me passou tanta confiança, outra emoção humana me encheu; saudades.
Eu preciso confiar em Arlene, eu sei disso, ela é a pessoa enviada por Ariel para me ensinar a ser uma humana, isso quer dizer que ele confia nela, então quem sou eu para não confiar também, Ariel nunca me prejudicaria. Entrei no elevador e a porta se fechou, Arlene apertou o botão com o número sete e uma luz azul se ascendeu ao redor do botão, acima do painel número, a um contador digital que mostrava os números por andar em vermelho. Dentro daquela caixa de metal, eu me senti sufocada e apavorada.
Quando o elevador parou não sétimos andar eu sou a primeira a sair, respirando fundo, tentando acalmar as frenéticas batidas do meu coração. Arlene passou por mim e abriu a porta do apartamento 73.
- Depois de você. – Ela disse ficando do lado de fora, me dando passagem total para a sua casa.
Entrei no apartamento com um novo sentimento humano nascendo em mim, curiosidade. Me perguntei como é possível estar a somente algumas horas na terra e já sentir tantas emoções, como os humanos sobrevivem a isso? O apartamento de Arlene é pequeno, logo no final do pequeno hall de entrada, à esquerda, encontrava-se uma pequena cozinha, mais a frente uma sala dividia em duas, um lado uma mesa de jantar do outro uma sala de TV. Arlene me levou para um dos quarto, são dois ao todo no apartamento. O meu quarto e pequeno, uma cama de solteiro esta encostada na parede, um guarda-roupa embutido de cor branco e rosa ocupava toda uma parede, ao lado da cama uma pequena mesa de cabeceira branca como o aguarda roupa, acima um abajur e outro aparelho dividiam o pequeno espaço.
Ao todo o quarto era simples, bem diferente dos quartos das crianças nas minhas missões, mas também esse não é o quarto de uma criança, é o quarto de uma hospede que é o que sou.
- Comprei algumas roupas para você, Ariel me falou de você e acho que acertei no tamanho, essas roupas ficaram boas, mas têm outras aqui no guarda roupa. Fique a vontade, mexa na geladeira sempre que sentir seu estomago roncar, ande pela casa, pelo prédio se quiser, só não saia pelo portão ainda, você não conhece nada por aqui e acabaria se perdendo. – Arlene disse entrando no quarto, colocando minha mala azul na cama.
Ficamos nos olhando, um silêncio incomodo caiu sobre nós, eu não sei se devo dizer alguma coisa, estou insegura novamente.
- Sei que você tem perguntas para mim, – Arlene quebrou o silencio. – Mas somente vou respondê-las quando você fizer as perguntas. Você tem que se acostumar a fazer perguntas, a expressar suas opiniões, isso tudo é importante no mundo humano.
Não respondi, tenho mesmo a cabeça cheia de perguntas, mas estou insegura se devo mesmo soltá-las.
Arlene suspirou e caminhou para a porta.
- Quando você estiver pronta, estarei na sala para responder as suas perguntas. – E ela saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.