Capitulo Seis
A livraria de Apollo é enorme. Dois andares, sendo o segundo uma cafeteria, no primeiro há estantes e mais estantes com livros de diversos gêneros, tamanhos, cores, muitos de autores internacionais. Os funcionários usam uniforme padronizado, os homens calças bege e camiseta azul marinho com o nome e logo da livraria bordado em branco, as mulheres usam saias do mesmo tecido e cor das calças dos homens, assim como camisetas iguais.
Apollo me mostrou sua livraria com todo orgulho, anunciou que eu seria a sua gerente assistente, um cargo onde eu posso observar e ser pouco notada. Ele me ensinará a como lidar com os empregados e clientes, mas me tranquilizou que ele mesmo resolve sempre os problemas já que quase nunca se ausenta da loja. Ele nos convidou para tomar café no segundo andar, tomei café com creme novamente, Apollo e Arlene conversavam sobre coisas que eu não entendi nada, por isso me distrai olhando ao redor.
Crianças brincavam em uma área reservada somente para elas, algumas estantes acessíveis para suas alturas estão repletas de livros coloridos, mesinhas e cadeirinhas amarelas estão cheias de desenhos pintados a lápis de cor ou giz de cera. Algumas estavam lendo sentadas e enormes almofadas de varias cores, elas estavam tão concentradas em suas leituras, que nem o som das outras crianças os fazia desviar os olhos dos livros.
Até que percebi um dos pequenos olhando fixamente para mim, Ariel tinha me avisado que as crianças ainda poderiam ver minha aura de anjo, elas são os seres mais puros, por isso eu não passaria despercebida perto delas. O menino vestido com calça jeans azul, camiseta do Super-Homem e tênis All Star, ele não desviava os olhos de mim, quando percebeu que eu também o encarava, ele sorri e acena com a mão, aceno de volta, mas eu não sorri... não sei como fazer isso. Mas o garotinho não se deixou abater, pegou um dos livros e subiu correndo para o segundo andar, continuou correndo até que chegou perto de mim, assustando Arlene e Apollo.
- Você lê para mim? – Ele perguntou sorrindo.
- Claro. – Respondi me levantando, o pequeno pegou a minha mão e descemos para o primeiro andar. – Qual o seu nome?
- Noah.
- Lindo nome, Noah.
- E qual o seu?
- Angie.
- Eu gostei. – Noah sorriu para mim de novo. – Você brilha. – Ele disse com admiração.
- Eu sei.
Nós chegamos à área das crianças ainda de mãos dadas, eu me sentei no chão e Noah se sentou no meu colo. Olhei para o livro que ele escolheu O Pequeno Príncipe. Comecei a ler, em poucos minutos quando era somente Noah me ouvindo, outros três se sentaram perto de nós, então outros e mais outros, até que as mesinhas ficaram vazias, os desenhos foram esquecidos, até aquelas crianças que já liam sozinhas largaram seus livros de lado e se sentaram perto de mim. Eu continuei a ler, chegando à minha parte preferida.
“A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me. - disse ela.
- Bem quisera,- disse o principezinho, - mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, - disse a raposa. - Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, - respondeu a raposa. - Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, - disse a raposa. - Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais à hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei à hora de preparar o coração.”
Olhei novamente ao redor e mais crianças estavam a minha volta, assim como alguns adultos – três deles sentados no chão – me olhavam com seus olhos brilhando, Arlene e Apollo estavam lá também, ambos pareciam estar gostando daquilo, não posso negar, eu também estou gostando. Eu estou me sentindo mais humana, sei que tenho muito que melhorar, mas por agora, uma pequena parte de mim se sentiu em casa.
****
Arlene me chamou após eu ter lido três livros para todas aquelas pessoas, ela queria ir embora, tinha outras coisas a fazer e jurava que se eu não fosse embora logo, cairia no sono ali mesmo. Eu não sei se essa última parte é verdade ou não, porque eu nunca precisei dormir antes, mas ela sendo um anjo caído, que fez muitas missões se passando por humana, antes de largar tudo e ser uma de verdade, sou obrigada a acreditar nela. Mas somente consegui sair após todas as crianças me abraçarem e me beijarem, e também os adultos que queriam conversar comigo, um homem falou sobre um tal de encontro, mas eu não sei o que isso significa, então agradecei e disse que não.
Voltamos para o apartamento dela usando o metrô – já que tínhamos vindo de carona com Apollo, – Arlene queria me mostrar como usá-lo, me ensinar os macetes e necessidades de quem usa o metrô todos os dias, voltei a ficar em pânico diante daquela multidão indo e vindo, entrar no trem foi outro desafio, estou começando a pensar que tenho... como é mesmo a palavra? Claustrofóbica? Acho que é isso, talvez eu seja claustrofóbica. Mas não vou negar que foi um alivio chegar ao apartamento, me ver dentro daquele lugar pequeno, onde duas pessoas não ocupam tanto espaço assim.
- Vá tomar banho, enquanto eu preparo algo para você comer – Arlene disse quando entramos. – Não deve demorar muito para o seu corpo te cobrar algum sono, não quero que você caia de cara no prato de comida. – Ela me olhou com uma sobrancelha erguida. – Você sabe tomar banho, certo?
Apesar de nunca ter precisado tomar banho lá no céu, eu já tinha visto muitas crianças tomar banho e, outro sentimento nasceu em mim; orgulho. Eu não diria a ela que eu não sabia, o que eu não sei mesmo, mas posso aprender sozinha.
- Sei. – Respondi caminhando para o banheiro.
O banheiro do apartamento é pequeno, talvez o menor de todos os cômodos. Arlene tinha me dito que aquele é o meu banheiro, ela tem o dela dentro de seu quarto. Os azulejos são brancos, com delicadas flores pintadas em azul, o vazo sanitário – como Ariel o tinha chamado, ou privada – como Arlene o chama, é branco, ao lado dele encontro o tal de bidê, mas não sei se entendi direto qual a sua finalidade, o box de vidro fosco ocultava quem estivesse ali dentro. O chuveiro é grande, mas a também uma banheira muito convidativa, eu sempre quis saber como é tomar banho ali, mas mesmo com muita vontade de fazer isso, não vou fazer. Arlene havia dito – inúmeras vezes – que logo eu cairia no sono, então julgo que dormir enquanto estou dentro de uma banheira cheia com água, não é a coisa mais inteligente de se fazer.
Tirei minha roupa, ficando totalmente nua pela primeira vez em toda a minha existência, como anja eu não preciso tomar banho, então nunca tirei a túnica. Lembrei do vento gelado batendo em meus seios e do compromisso de examiná-los quando tivesse a oportunidade e, bem, ela chegou. Caminhei para perto do espelho acima da pia e os examinei curiosa, são médios, hoje envolta de tantas mulheres vi muitos, de diferentes tamanhos, então a julgar pelo o que vi, os meus são médios. Ao tocá-los senti minha pele macia, mas firme, comecei a me sentir... como os humanos falam mesmo? Uma idiota? Talvez idiota seja a palavra certa.
- Está tudo bem ai? – Arlene falou batendo na porta.
Naquele momento a água começava a esquentar.
- Sim. – respondi sentindo a agradável sensação da água quente na minha pele, eu testei abrir um pouco mais a água e ela ficou morna, perfeita. Entrei de cabeça no jato de água, suspirando deliciada com as sensações que me envolviam, fechei os olhos e fiquei ali parada, deixando o jato massagear minhas costas e ombros. Quando os abri, reparei em um frasco verde pendurado em uma armação branca pregada na parede, a outro frasco ao lado do primeiro, os peguei e li a embalagem, um é xampu o outro condicionador, ambos diziam que eram para ser usados nos cabelos. Li os rótulos e segundo o que estava escrito ali, eu tenho que usar o xampu primeiro e depois o condicionador esse deve ser usado somente nas pontas do cabelo e enxaguado bem após cinco minutos.
Tirei a tampa do xampu e senti seu cheiro, um delicioso cheiro veio ao meu nariz, mas como eu nunca senti nenhum cheiro antes, eu não sei identificar sua origem, li novamente o rotulo da embalagem e lá estava, perfume de flores silvestres. Eu nunca senti o cheiro de flores silvestres, então acreditei no rotulo e joguei um pouco na minha mão, logo passei o liquido em meus cabelos e comecei a massagear do mesmo jeito que eu tinha visto as mães fazerem com seus filhos. Repeti o processo mais uma vez, porque na embalagem dizia que para cabelos longos – que é o meu caso – a operação deveria ser feita duas vezes, após enxaguar bem, passei o condicionador – somente nas pontas – e o deixei agir, enquanto ele agia, eu peguei outro frasco, esse estava na borda da banheira, no rotulo dizia sabonete líquido, peguei uma bucha de banho, me baseando novamente nas lembranças das minhas missões, de quando as mães davam banhos nos filhos.
Ri com a lembrança de quando a criança me perguntava com era tomar banho no céu e eu respondia que não tomávamos, eles riam e contavam para suas mães ou babás que os anjos não tomavam banho, elas sem acreditar, somente riam, ou diziam que o céu não deveria ter um cheiro muito bom. Mas no fundo elas não acreditavam em nada daquilo, para elas, seus filhos, ou os filhos de seus patrões, tinham um amigo imaginário que tinha a forma de um anjo e falava coisas absurdas como aquelas.
Acabei de tomar banho, posso dizer que gostei muito da experiência. Sai do banheiro vestindo um pijama que Arlene me deu, ela me contou que serve somente para dormir, que eu não posso sair do apartamento usando ele. O que uso agora é rosa claro, com varias luas, estrelas e bolinhas todos eles brancos, Arlene me mostrou vários pijamas, talvez um para usar a cada dia, não tenho certeza. Ouvi sons vindos da cozinha, o cheiro de algo chegou ao meu nariz, meu estomago voltou a se mexer, me aproximei devagar, parei na porta e olhei Arlene preparando algo com pão de forma.
- Gostou do banho? – Ela perguntou sem olhar para trás. – É uma das melhores partes de ser mortal.
- Gostei. – Respondi simplesmente, nunca fui uma anja de muitas palavras.
- Sanduiche de queijo quente – Arlene colocou um prato na mesa. – É o almoço tardio, já que estamos quase na hora da janta.
Senti uma pressão dentro de mim.
- O que foi? – Arlene me perguntou.
- Não sei.
Arlene começou a rir. – Você esta com cara de quem precisa usar o banheiro.
- Como?
- Se sente na privada e deixe a natureza seguir seu curso. – Sai correndo em direção ao banheiro. – Não esqueça de abaixar as calças antes. – Arlene gritou da cozinha e logo começou a rir.
****
Após esse terrível incidente e, depois de descobrir para que o papel higiênico funciona, eu estou sentada na cadeira da cozinha de Arlene. Provei do sanduiche de queijo quente – que agora está frio – e gostei bastante. Senti meus olhos se fecharem, não entendi o que estava acontecendo comigo, meu cérebro está lento, meus movimentos estão lentos.
- Melhor você ir para o seu quarto. – Arlene falou. – Eu sabia que mais cedo, ou mais tarde, você ficaria com sono.
Então sentir sono é isso? Não conseguir raciocinar direto, sentir seu corpo mole. Mas que coisa estranha.
- Quantos milênios você tem mesmo?
- Dois. – Respondi com a voz mole.
Arlene riu novamente. – Então você vai dormir por uns dois ou três dias.
- O que?! – Falei, ou tentei falar, ou talvez eu somente tenha pensado, já não tenho mais certeza. Sentia meu corpo decaindo a cada segundo. Senti Arlene me segurando, tentei – muito – manter os olhos abertos, mas eu estou falhando. A última coisa que vi, foi Arlene me jogando na cama.