Cap 3


Capitulo Três

Respirei fundo, tentando controlar as fortes batidas do meu coração, mas acabei me engasgando com a fumaça escura vinda de um ônibus pequeno lotado de gente vestida de forma estranha. Os barulhos da cidade eram muito altos e, machucavam os meus ouvidos, principalmente um muito estridente que estava bem perto de mim, alguns humanos passava pelo... como é mesmo o nome? Carro?

É, acho que é isso, carro. Eles olhavam mal humorados para ele, percebi que um braço se mexia do lado de fora do carro.

- Hei você, novata! – A mulher de dentro do carro gritou.

Olhei para ela sem entender nada, mas como eu não sabia qual emoção eu deveria sentir, eu apenas olhei para ela com o rosto em branco. A mulher fez um barulho estranho e saiu do carro vindo na minha direção.

- Eu estou falando com você. – Ela falou quando me alcançou. – Anda vamos embora antes que eu leve uma multa por sua culpa. – A mulher tomou a mala da minha mão e voltou para o carro, quando ela percebeu que eu permaneci no mesmo lugar, ela voltou a me olhar. – Está esperando o que? Anda, vamos embora!

Pisquei e andei até onde ela estava, ela me olhou com uma sobrancelha levantada e um sorriso no canto da boca.

- Porque você esta andando assim?

Olhei para as minhas pernas e de volta para a mulher novamente.

- Parece que você esta apertada para ir ao banheiro e tem que andar com as pernas trançadas para não fazer nas calças. – Ela disse rindo. Mas para falar a verdade... eu não entendi nada do que ela estava falando.

- Me observe. – Ela falou e começou a andar na minha frente, reparei no modo como ela anda, definitivamente é bem diferente de como eu estava andando.

Tentei andar como ela, não saiu igual, mas acho que já tinha melhorado.

- Bem melhor, mas ainda tem muito a aprender. – A mulher me elogiou, novamente senti a vaidade dentro de mim. – Vem vamos para casa.

- Obrigada. – Respondi como Ariel me ensinou.

A mulher jogou a cabeça para trás e riu novamente, ela abriu a porta do carro para mim e eu a olhei.

- Eu vou ter que te ensinar tudo?

- Vai.

- Era uma pergunta retórica. – Ela rebateu. – Você sabe sentar?

“Pergunta retórica”? O que é isso? Acho melhor Ariel aparecer ainda hoje.

- Sei.

- É a mesma coisa, só que você tem que abaixar a cabeça para não bater no carro, assim. – Ela se sentou no carro, me mostrando como abaixar o corpo e a cabeça ao mesmo tempo, quando ela saiu, eu me sentei como ela tinha me mostrado, ela fechou a porta e deu a volta entrando pelo outro lado.

Esses humanos são tão estranhos.

Quando ela fechou a porta do lado dela, ela jogou a minha mala para o banco de trás e se inclinou para cima de mim.

- Cinto de segurança, sempre que você andar de carro aqui na Terra, você tem que colocar. – A mulher me explicou. – Você puxa assim e trava aqui. – Ela levou o cinto ate um negocio ao lado do banco e aquilo se encaixou com um clique. – Certo?

- Sim.

Ela fez o mesmo com o cinto dela, e então ligou o carro. Alguns minutos depois ela olhou para mim.

- A propósito, meu nome é Arlene. – Ela esperou a minha resposta, mas eu a estou considerando uma tutora e eu nunca fiz perguntas para o meu tutor. – Qual é o seu?

- Anja. – Respondi.

- Anja?

- Sim.

- Quem, demônios, te deu esse nome? 

- Ariel. – Respondi. E ele não é um demônio, ele é um arcanjo, acrescentei mentalmente, mas não falei, ela é apenas uma humana.

Ela, como se fala mesmo? Bufou? É isso, ela bufou antes de dizer.

- Bem a cara dele.

Eu senti vontade de perguntar de onde ela conhecia Ariel, mas novamente fiquei em silêncio. E ficamos assim, em silêncio, por um bom tempo, eu estou olhando pela janela, algumas vezes vejo algo que chama tanto minha atenção que para continuar a ver aquilo que eu dobro meu pescoço ao limite.

- Vamos ter que arrumar outro nome para você. – Arlene disse.
Olhei para ela, mas aguardei em silêncio.

- O seu nome é muito óbvio. – Ela explicou. – Tem algum nome que você goste?

- Eu gosto do meu.

- Mas o seu não é viável no mundo humano, vai gerar muitas perguntas, perguntas essas que você não pode responder a não ser que queira parar em um hospício.

Suspirei, não tenho a menor ideia do que ela está falando novamente.

- Podemos pensar em um que se pareça com o seu. – Ela parou de falar e ficou pensando.

Eu voltei minha atenção para o lado de fora do vidro, estávamos em Nova York, estava frio do lado de fora, os humanos usavam roupas pesadas e muitos escondiam os rostos no casaco.

- Que tal Angela? – Arlene chamou minha atenção, não respondi, mas a verdade é que eu não gostei do nome. – Não gostou? – Ela perguntou, eu abri a boca para responder, mas ela respondeu por mim. – Bem, eu também não gostei para falar a verdade. O que você acha de Angie?

Esse é bonito, eu gostei.

- Gostou, não é? – Ela perguntou, mas não esperou eu responder novamente. – É claro que você gostou, então agora aqui na Terra você é a Angie. Você está com fome?

Fome? O que é mesmo isso? Lá no céu eu nunca senti isso, muito menos frio, calor, sono, nem o gosto das coisas eu sentia, é tudo tão novo para mim que... o som que veio de dentro de mim me assustou. Acabei dando um pulo de surpresa e olhei para Arlene.

-É acho que isso quer dizer que você está com fome.

Ela fez a volta e entrou em outra rua, para mim todas essas ruas são iguais, não sei como Arlene não se perde. Ela parou o carro em um lugar com uma placa, dizia Black Coffee, mas café já não é preto? Porque colocar um nome desses? Eu não entendo esses humanos.
Arlene se inclinou sobre mim novamente e abriu a porta.

- Você solta o cinto assim, - Ela apertou um botão vermelho soltando o cinto, imediatamente ele recuou sozinho para o seu lugar de origem. – Vamos comer algo. – Ela fez o mesmo com o seu cinto e saiu do carro.

Eu a segui e fechei a porta como ela tinha feito primeiro. Arlene é uma humana estranha como os outros, ela deve ter por volta de cinquenta anos, seu cabelo preto já tem alguns brancos visíveis, ela o usa em um coque apertado e discreto, ela é um pouco rechonchuda. Ela está vestida como a maioria dos humanos, casaco pesado, calças compridas e uma bolsa enorme, eu não conseguia imaginar o que ela carregava ali dentro.

Ela abriu a porta do Black Coffee e um mundo de cheiros chegou a mim, dentro de mim voltou a fazer barulho, um som tão alto veio de lá de dentro que eu tenho certeza que todos no café conseguiram escutar e dessa vez eu senti algo se mexendo, olhei para a minha barriga e Arlene disse.

- Isso é o seu estômago, você se acostuma a ele.

Ela pegou meu braço e me levou para uma das mesas, quando nos sentamos, outra humana se aproximou, essa parecia mais jovem que Arlene, usava calça preta, uma camiseta branca com o nome desse lugar do lado esquerdo, seu cabelo loiro esta preso, no que os humanos chamam de rabo de cavalo.

- Bem vindas ao Black Coffee. Eu sua Juliene, o que posso trazer para vocês? – Juliene falou nos entregando algo grande, era preto, como um livro, na capa estava escrito “Cardápio.” Arlene o tirou da minha mão.

- Eu vou querer somente café preto e sem açúcar, mas para ela você trás panquecas com calda, suco de laranja, bacon e torradas, vai querer café também Angie?

Confirmei com a cabeça, eu já tinha visto os humanos tomando café, mas nunca nem senti o cheiro dele. Agora uma nova emoção humana crescia em mim: curiosidade.

- E um café com açúcar e creme para ela. – Arlene disse para Juliene. – Obrigada.

- Já volto com seu pedido. – Juliene disse saindo.

- Obrigada. – Eu disse, mas foi muito tarde, Juliene já estava longe, acho que ela nem me ouviu. Eu preciso mesmo treinar esse negocio de educação que Ariel tinha tanto me falado, por pensar em Ariel, espero vê-lo ainda nesse dia, tenho tantas coisas a contar.

- Entendo que você esteja se sentindo fora do lugar aqui, mas em alguns dias você se acostuma. – Arlene disse me tirando dos meus pensamentos.

Olhei para ela novamente, não sei o que ela espera que eu diga, nem que tipo de emoção eu deveria sentir. Juliene voltou com um bule transparente com café em uma mão e na outra um pequeno prato branco com uma caneca em cima, jogou o café na caneca branca que esta na frente de Arlene e colocou o prato com a caneca na minha frente, saindo logo em seguida, sem me dar chance de dizer obrigada de novo.

Provei da minha caneca e queimei a boca.

- Cuidado está quente. – Arlene me avisou com humor nos olhos.

A observei atentamente enquanto ela levava a caneca à boca e soltava o ar no café.

- Você tem que soprar antes de beber. – Ela me disse após tomar um gole de café. – Viu? É fácil.

A imitei e realmente aquilo funcionou, afinal quem era eu para não acreditar nela, ela é humana, ou eu acho que ela é, ela sabe mais do que eu pelo menos. Eu olhei para Arlene de novo, só que dessa vez eu realmente a olhei e me perguntei como ela sabe sobre Ariel? E como ela sabe de mim? Por que ela está me ajudando em primeiro lugar? Continuamos em silencio enquanto ela sorvia se café puro e sem açúcar, enquanto eu me deliciava com o doce que vinha do creme que estava no meu. Juliene voltou com outro prato, neste havia duas formas estranhas triangular, ladeada por duas tiras de algo que realmente cheira muito bem. Meu estômago fez barulho novamente e minha boca se encheu de água, sem eu nem ter percebido a ação, senti minha língua deslizando entre meus lábios.

- Vá em frente, – Arlene disse. – Coma antes que o barulho do seu estômago chame ainda mais atenção.

Segurei a forma triangular na minha mão, sem saber qual é o nome daquilo. Quando Arlene falou para Juliene o que trazer eu não prestei muita atenção ao que ela disse, já que ela falou muitas coisas ao mesmo tempo, então olhei para Arlene.

- Você quer saber o que é isso? – Ela perguntou erguendo uma sobrancelha.

- Sim.

- Isso é uma torrada.

Do que ela é feita? A pergunta surgiu na minha cabeça.

Arlene suspirou alto.

- Ela é feita de pão de forma e preparada em um utensílio doméstico chamado, torradeira. – Ela falou e eu senti que ela exalava uma emoção. Posso não ter passado muito tempo próxima aos humanos adultos, mas muitos deles faziam a mesma coisa com seus filhos enquanto esperavam eles terminarem de brincar comigo, eles perdiam a paciência. – Angie você não vai se dar bem nesse mundo se não fizer perguntas. O mundo humano é regido de perguntas e respostas, o seu é diferente, eu sei, você é criada a obedecer e nunca questionar, mas isso não funciona aqui. Você tem que questionar, você tem que responder e tem que dar a sua opinião, sempre!

Voltei minha atenção para a minha mão, ainda segurando a torrada, a virei de todos os lados e então a levei para a boca. Era dura, tinha um leve toque de algo gorduroso que sujava meus dedos, assim como tinha alguns fiapos estranhos, mas que não eram ruins.

- Esse pão é pão integral, ele tem alguns grãos que você sente quando come, aqui eles costumam passar manteiga logo que a torrada fica pronta, por isso tem gordura nos seus dedos. Isso – Arlene apontou para a tira cheirosa que estava no prato – é bacon frito, você come junto com a torrada.

Fiz o que ela disse e quando as misturas dos sabores da torrada com o bacon tomaram a minha boca eu comecei a comer mais depressa, não tinha reparado, não até aquele momento, o tamanho da minha fome.

- Vá com calma ou você vai se engasgar. – Arlene me alertou, mas eu não prestei atenção, a fome tinha se apossado de mim.

Juliene reapareceu com um copo e outro prato, dessa vez, ele está mais cheio do que o primeiro e eu já tinha acabado com ele. Quando ela se afastou, Arlene disse.

- Isso – ela apontou para o copo. – É suco de laranja e isso – ela apontou para o prato – é panqueca, pegue o garfo e corte assim. – Arlene me mostrou como cortar a panqueca.

Tomei o garfo da mão dela e voltei a comer rapidamente, provando o suco de laranja logo em seguida. Deus! Isso é realmente bom!

Mas parecia que meu estomago não tinha fim, ele tinha parado de fazer barulho, mas eu ainda o sentia vazio. Após eu comer até as mínimas coisas que havia no prato, Arlene chamou Juliene de novo e pediu a conta. Eu não sei exatamente o que é isso, mas Juliene voltou com um papel branco na mão e o colocou na frente dela, ficando, desta vez, recolhendo os pratos e as canetas sujas. Arlene olhou para o papel e pegou a bolsa, ela tirou outro papel todo desenhado. Ah! Mas isso eu sei o que é, por várias vezes, minhas missões foram pedidos de crianças que não tinham a atenção de seus pais, mas eles davam isso a elas; dinheiro.
Arlene colocou o dinheiro na mesa junto com o papel, logo começou a se levantar e eu a acompanhei, Juliene pegou o dinheiro e contou.

- Valeu pela gorjeta. – Ela disse para com os olhos bem abertos.

- De nada. – Arlene respondeu dando de ombros e saímos.