Capitulo Dois
Nos dias que se seguiram eu e Ariel nos entregamos aos detalhes da minha nova missão. Ela requeria mais detalhes do que as outras, já que eu sou tão nova e completamente inexperiente com humanos adultos. A sala do Destino foi onde passamos mais tempo, lá é onde os livros do destino são escritos e arquivados, uma vez que o desejo da minha missão seria atendido, seu destino mudou. E nos livros eu descobri quando e aonde vamos nos ver pela primeira vez, a partir daquele dia, minha missão estava começando.
Exatamente quatro dias – terrestres – que Ariel havia me entregado essa missão, eu estava pronta para ir. Eu estava prestes a mergulhar no mundo humano, eu seria uma humana por algum tempo e pela primeira vez na minha existência eu estava sentindo uma emoção humana, eu estava com medo.
Ariel tinha tudo preparado, não me perguntem como, nem eu sei, mas não posso perguntar. Minha aterrissagem seria no aeroporto de Nova York – mais especificamente no banheiro feminino – uma mala estaria me esperando com roupas e do lado de fora uma pessoa estaria me esperando com um carro. Tudo arranjado por Ariel.
Olhei para ele antes de tirar minhas asas da fenda das minhas costas, durante a descida meu corpo tomaria forma humana, Ariel tinha me garantido que não doeria, mas esse é o último dos meus problemas. Eu não sabia que estava por vir, eu não sabia quem me ajudaria a aprender a ser mais humana. Ariel acenou para mim com a cabeça, uma promessa de que tudo daria certo, respirei fundo e abri minhas fendas, deixando minhas asas livres ao vento, respirei fundo, fiz minha ultima oração e voei para a Terra. Voei para o meu destino.
A queda foi rápida, mais rápida do que eu poderia imaginar e o melhor de tudo, eu não senti nada, não senti nem a queda, nem a mudança. Foi como piscar os olhos e agora me encontro dentro do banheiro humano, o cheiro não era um dos melhores, sendo o primeiro odor que senti, não é muito agradável.
Olhei para as minhas mãos e não acreditei na cor da minha pele, eu não sou mais branca como uma nuvem, minha pele tem um leve tom bronzeado, a palavra “inacreditável” passou pela minha cabeça. Meus braços têm ate pequenos pelos escuros, eu tentei andar e aí tive minha primeira dificuldade, eu não sei andar como os humanos, eu quase nunca andei, no céu nós voamos e planamos a maior parte do tempo, minha maior utilização para meus pés é na hora de aterrissar. Fechei meus olhos e tentei lembrar como os humanos andam, acho que é um pé após o outro, ok, vou tentar assim.
Levantei o pé direito e o coloquei na frente do esquerdo e, pelo menos não caí, mas eu sei que ainda estou andando de forma estranha. Andando do meu jeito estranho, fui para perto de um dos espelhos, eu tenho que me ver no espelho, essa é a minha primeira necessidade e assim que meu reflexo olhou de volta para mim, senti minha segunda emoção humana: vaidade.
Meu rosto estava... como é mesmo a palavra que os mortais usam? Lindo? Deslumbrante? Não tenho certeza de qual é a palavra certa, mas isso não tem importância, não quero perder meu tempo tentando lembrar de uma mera palavra, quando meus cabelos, finalmente, têm cor, eles são escuros, acho que os humanos chamam de ‘castanho escuro’. Meu rosto em forma de coração, com nariz pequeno e fino, hesitante estiquei minha nova mão e toquei em meu rosto. Pela primeira vez em dois milênios eu pude sentir algo com o tato, minha pele é incrivelmente macia. Senti meus olhos se arregalarem quando vi a cor dos meus olhos.
Cor!
Meus olhos têm cor! Fascinante.
Fascinante, eu não conseguia para de dizer essa palavra na minha mente, meus olhos têm uma cor diferente, não me lembro de ter visto essa cor nos olhos das crianças nas minhas missões. A cor deles é violeta, não essa não é a palavra, a cor é mais escura do que violeta, não sei dizer qual o nome da cor, mas vou perguntar para Ariel... assim que ele aparecer.
“Hei! Será que você pode desocupar o banheiro?!”
Uma batida na porta me sobressaltou me tirando do meu transe vendo-meu-rosto-pela-primeira-vez, colocando um pé na frente do outro, contei as cabines e encontrei a mala azul no chão. Outra dificuldade, como abrir uma mala? Puxando do fundo da minha memória, revi quando um garoto em uma das minhas missões com os anjos da alegria, eu lembro quando ele trouxe sua pequena mochila escolar para me mostrar sua estrela por bom comportamento. Ele puxou algo, tentei puxar o pequeno ferrinho na ponta da mala e com um barulho todo aquele trilho abriu.
Acho que passei no teste. – Pensei.
Espiei e empurrei os lados da mala, Ariel tinha me dito o nome de algumas roupas humanas, eu puxei um pano branco de dentro da mala, é bem fofo e macio, um cheiro diferente se sobressaiu ao terrível cheiro do banheiro, aproximei o pano branco do meu nariz e inalei profundamente, definitiva aquele cheiro doce está vindo da roupa. Levantei a roupa para ver melhor sua forma, me lembrando das inúmeras coisas que Ariel me falou, conclui que aquele pedaço de pano, fofo, macio e cheiroso se chama: ‘camiseta. ’
Decidido o nome, me vi em outro dilema.
- Como eu visto isso? – me perguntei, enquanto tirava minha toga, sentindo o que os humanos chamam de seios, mas decidi ignorar, quando eu tivesse mais tempo eu os verificaria melhor.
Não sei quantas vezes girei a camiseta, mas consegui vestir da maneira que julguei ser a certa, espero de verdade ter conseguido, mexendo mais um pouco encontrei algo que os humanos adoram usar, não teve um dia nesses dois milênios de existência, que eu não tenha visto um humano usando isso, por isso foi tão fácil saber o que era e como vestir; uma calça jeans.
Os ‘tênis’ foram outro grande problema, eu de verdade não sei para que servem aqueles cordões brancos, por isso os coloquei dentro do tênis, junto com os meus pés. Respirei fundo e me ajeitei levantando do chão, andando com um pé após o outro fui ate a porta e abrir, ela fez um barulho estranho e dei de cara com uma mulher humana, a primeira humana que pode me ver também.
- Finalmente, hein?! – Ela falou para mim entrando no banheiro.
- Desculpe. – Falei em resposta, Ariel tinha me dito que “desculpe” e, “por favor,” são as palavras mágicas dos humanos.
Sai e me deparei com muitas pessoas, tantas que eu não conseguia imaginar como cabiam dentro daquele lugar. Andando – ou tentando andar – entre eles, alguns me empurraram, outros quase me derrubaram, eu fui jogada de um lado a outro sem saber que direção tomar. Senti outra emoção humana quando um enorme grupo apareceu do nada e me arrastou com eles, senti: pânico.
Eu não conseguia sair daquela manada de humanos, eles nem olhavam para mim, somente me arrastavam com eles, resolvi fechar os olhos e me deixar levar, rezando para não ser presa ou algo assim logo nas minhas primeiras horas na Terra. Subitamente tudo parou, eu me senti imóvel, espiei com um olho só, um vento frio fez meu corpo estremecer. Eu estava agora na parte de fora do aeroporto, como os humanos falam: “Lega!”
Aquela manada descontrolada de humanos me carregou para onde eu deveria ir, Ariel ficaria orgulhoso de mim.