Cap 1

Capitulo Um


Eu estava sentada em uma nuvem. Chovia na terra. Eu via a chuva caindo em cima dos humanos pegos desprevenidos, alguns corriam a procura de abrigo, outros usavam suas maletas, malas ou bolsas para protegerem suas cabeças. Outros apenas andavam já conformados de que não adiantava correr, eles se molhariam do mesmo jeito.

A chuva não me acertava, eu estava acima dela, bem no alto, onde eu moro, no céu. Isso mesmo, no céu. Eu sou um anjo, ou se vocês preferirem, uma anja. Aliás, esse é também o meu nome, Anja.
Eu nasci há dois milênios, isso quer dizer – para os outros anjos – que eu ainda sou um bebe. Nosso tempo não é contado como dos humanos, por isso não se assustem com a minha idade. Nós anjos, aqui no céu, temos uma aparência – que você poderia chamar de – padrão, todos têm cabelos brancos, olhos sem cor, pele branca como as nuvens. Usamos túnicas brancas, elas são cumpridas até os pés e presas com um cinturão dourado na cintura. Quase tudo em nós é igual, isso foi adotado pelos Arcanjos – os maiores superiores dos anjos – após o terrível episódio com o anjo Lúcifer, o mais belo de todos, mas também o mais vaidoso. Ele foi banido e as coisas mudaram, com nossas aparências iguais não alimentamos nossa vaidade, nem nossa inveja, não existiu mais problema aqui no céu.

Somos ensinados desde nosso nascimento a não sentir emoção. “– Isso é para os humanos. Nós, anjos, não sentimos nada, nossa única missão é ajudá-los a passar por suas vidas e por sua passagem vida/morte.” É isso que nosso tutor nos ensina.

Eu tenho um tutor, seu nome é Ariel, o conheci assim que nasci, ele me ensinou tudo o que sei, e ele que me encaminha para as minhas missões terrestres. Minhas missões são simples, eu sou a anja da alegria, sabe quando seu filho – ou filha – está conversando sozinho? Bom, você acha que ele esta falando sozinho, quando na verdade, ele esta conversando com os anjos da alegria. Vou muito a hospitais também, principalmente quando a criança reza para nós, nos pedindo ajuda, não posso curar sua enfermidade, mas posso alegrar seu dia e fazê-los esquecer da dor, ou posso acompanhá-los ao seu destino final, quando sua hora terrestre acabou.

Não posso, nem devo, interferir no destino de um terrestre, se recebo uma missão devo levá-la até o fim, por isso mesmo sentada aqui nessa nuvem tão perto e ao mesmo tempo tão distante deles, não posso fazer nada por nenhum dos que estão se molhando por causa da chuva, essa não é a minha missão e ser salvos da chuva não é o destino deles.

Ariel é muito protetor, ele não permite que eu vá a outras missões além das dos anjos da alegria. Ele está sempre preocupado comigo, é um bom irmão. Ariel, como os outros arcanjos, tem a aparência diferente da minha. Ele é alto, muito alto, têm cabelos curtos de cor dourada, seus olhos são azuis, seu nariz fino e levemente arrebitado, maças do rosto bem definida, sem nenhuma imperfeição no rosto ou corpo perfeitamente esculpido, suas vestimentas são diferentes das minhas também. Por baixo ele usa uma toga como a minha, mas por cima uma armadura dourada, com símbolos e formas desenhadas a mão tomam toda parte do tórax as costas, cada símbolo significa as suas missões bem sucedidas e as formar – espirais, retangulares, etc. – são as representações das missões cumpridas por seus pupilos. E a armadura de Ariel é lotada desses desenhos.

- Sozinha aqui de novo?

Uma voz dentro da minha mente chamou minha atenção, meu pingente do Chamado brilhou e eu não precisei procurar para saber quem era. Esse colar é usado por todos os anjos da alegria, ele serve como um comunicador entre anjo/tutor, toda vez que Ariel se comunica comigo telepaticamente o colar libera uma luz branca, que somente eu e ele podemos ver. O pingente fica preso a uma fina corrente de ouro, ele tem formato de asas, com as pontas dobradas para fora, entre as asas um pequeno e delicado diamante serve como catalisador de energia. Quando quero me comunicar com Ariel, eu somente tenho que segurar o pingente entre minhas mãos e mandar o pensamento para ele.

- E você sempre atrás de mim. – Respondi.


Ouvi – algo como sua risada em resposta – e em poucos segundos ele estava sentado ao meu lado.


- E quem disse que estou atrás de você? – Ariel me cutucou no ombro. – Eu poderia estar só de passagem.


Olhei para ele, Ariel nunca viria para tão perto da terra sem um bom motivo.


- Está bem! – Ele levantou as mãos em rendição. – Eu vim atrás de você.

Não o questionei, somos ensinados que não devemos fazer perguntas para nossos tutores, então voltei a olhar diretamente para frente.

- Você tem uma nova missão. – Ariel anunciou.

Novamente não fiz perguntas, esperei até que ele me dissesse.


- Essa é diferente das outras, – ele hesitou e isso me fez olhar para ele, – Ariel nunca hesitou antes. – Vamos até a sala dos desejos. – Ele se levantou da nuvem e esticou suas asas, elas são bem maiores do que as minhas. As asas de Ariel, assim como as dos outros arcanjos, serafins e querubins, têm uma cor diferente, algo além do branco, nos arcanjos elas são misturadas com fios dourados, nos serafins são misturadas com fios prata e nos querubins com fios vermelhos.


Me levantei esticando e preparando minhas asas – brancas e fofas –  para o voou. Aquilo não era comum, Ariel nem sempre foi tão formal ao me entregar uma missão, nem quando era hora da criança deixar o plano terrestre, ele fora tão hesitante ao me passar as direções a tomar.

Voamos lado a lado para a sala dos desejos, lá é para onde os desejos dos humanos são enviados, diferente do que as estórias humanas contam, os desejos não chegam até nós em papéis enrolados, eles chegam a nós em esferas de cristal de luzes coloridas, essas luzes tomam formas de letras angelicais quando um anjo toca nela, e assim podemos lê-las. A sala é totalmente branca, toda construída, do chão ao teto, em mármore, em suas colunas anjos e símbolos da lingual angelical estão esculpidos perfeitamente, enormes e infinitas estantes guardam as brilhantes esferas dos desejos e, as que se apagam, são retiradas porque seus proprietários já não habitam o mais plano terrestre. As esferas que mudam para uma cor só, também são retiradas, pois seus proprietários tiveram seu desejo atendido.

Desci ao chegar perto das estantes, mas Ariel continuou a planar, chegando às prateleiras mais altas, procurando por uma em específico, ate que pegou uma e a trouxe para perto de mim.

- Esse é o desejo desse humano. – Ele falou me entregando a esfera.

A tomei em minhas mãos, sentindo sua forma esquentar, as luzes dançaram e então começaram a tomar formas de letras, o desejo do humano se manifestou e eu o li.

- Mas esse humano é adulto. – Não consegui evitar de observar. Eu não lido com adultos, somente com crianças, afinal eu sou um anjo da alegria e somente as crianças conseguem ver os anjos em suas reais formas.

- Sim, eu sei. – Ariel respondeu sem levar em conta que eu o havia questionado, mesmo quando eu tinha apenas constatado um fato. – Por isso mesmo que eu a avisei que essa missão seria diferente das outras. Você vai lidar com um humano adulto, vai mudar para um corpo terrestre e passar algum tempo na Terra. - Mordi a língua para me segurar, mas minha vontade era enchê-lo de perguntas.

Como isso foi acontecer? Eu sou um anjo de apenas dois milênios, lidar com humanos adultos era trabalho para anjos com mais de trinta, eu não tenho experiência nenhuma, não sei como lidar com eles, como ser um deles. Descer para a Terra e tentar ser como eles é muito difícil, eu não sinto emoção alguma e fingir sentir requer muito tempo de preparo, mesmo anjos com mais de trinta milênios não gostam de se arriscar indo ate a Terra e passarem por humanos.

- Sei que sua cabeça está cheia de perguntas, mas o desejo desse humano tem que ser atendido e, você foi a escolhida para isso. – Ariel olhou bem no fundo dos meus olhos. – Eu sei que você consegue, mesmo sendo tão nova, você já fez mais missões do que a maioria dos outros anjos da alegria. Será fácil e você nunca estará sozinha, lembre-se disso.

Não respondi, eu não tinha escolha e não adiantava tentar demonstrar emoção, eu não às sinto. Ariel me passou os detalhes da missão, voltou a prometer que eu nunca estaria sozinha e me liberou para fazer os preparativos para a minha nova e estranha missão.

Voltei para a nuvem onde estava antes, a chuva ainda caia forte na Terra, humanos ainda se molhavam e corriam atrás de abrigo, alguns já estavam com seus guarda-chuvas abertos enchendo a visão – daqui de cima – de cores variadas. Quase nada tinha mudado ali, e eu me perguntava como a minha existência tinha mudado tanto em poucos minutos terrestres.