Cap 7

Capitulo Sete

Eu acordei de tempos em tempos. Saia da cama quando sentia o chamado da natureza, ou quando Arlene me obrigava a comer alguma coisa, fora isso eu só dormi. Sei que Apollo apareceu nesses três dias que dormi, de alguma forma sempre senti o cheiro do perfume dele no meu quarto. Quando o sono finalmente acabou, eu me senti ainda mais cansada, o que é muito estranho já que dormi por três dias terrestres.


Fui trabalhar pela primeira vez, pude observar os humanos bem de perto. No meu primeiro dia, Apollo me contou que todos os dias muitas pessoas perguntaram se eu iria ler novamente para as crianças e que desde aquele dia, suas vendas de livros infantis aumentaram mais que o dobro. Eu não sei o que “mais que o dobro” quer dizer, mas vendo o brilho nos olhos dele, julguei que é uma coisa boa. Assim agora eu tenho outra função na livraria, todos os dias eu leio por uma hora para as crianças e adultos.


E tenho aulas com Apollo e Arlene todos os dias, com Apollo acontece durante nossa hora de almoço e com Arlene acontece quando volto da livraria. Usar o metrô é uma aventura diária, mas já virou rotina, na primeira vez senti o mesmo pânico do elevador, mas assim como no aeroporto uma multidão me arrastou para dentro do trem, não tive escapatória, então venci mais um medo. Estar entre os humanos é um desafio diário, nem Apollo, nem Arlene conseguem me fazer sorrir ou chorar, isso é frustrante para mim e para eles.

****


Ariel nunca apareceu, nem “pessoalmente,” nem em meus sonhos. Já estou há duas semanas na Terra e ele nunca responde aos meus chamados. Arlene tenta me acalmar, mas não tem muito sucesso, minha missão começa em alguns dias e tudo o que consigo sentir nessa ultima semana é medo e ansiedade. Eu sei o que devo fazer, mas não me sinto preparada, principalmente quando Ariel não aparece como ele tinha prometido.

Arlene jura que já estou mais humana, Apollo diz que não, ainda não consigo sorrir e ele diz que se eu não sorrir, eu não vou conseguir chamar a atenção da minha missão para mim. O que, claro, só aumenta meu medo. Com o salário que Apollo me paga consegui comprar um vestido de couro preto, muito curto, devo acrescentar, mas entendam, quem estava comigo no dia da compra foi Apollo, acho que não preciso dizer mais nada. A desculpa dele é; “Já que você não consegue sorrir, tem que chamar a atenção dele de outra forma, certo?”

O vestido é, como os humanos chamam, tomara que caia e ele prende com fitas nas costas. É bem bonito, mas não combina comigo, Arlene também acha, mas não tenho tempo para comprar outro vestido. Apollo comprou para mim botas para combinar com o vestido, elas são de camurça, pretas como o vestido e de cano alto, são lindas, grita o meu instinto humano fêmea recém-descoberto. Ando com elas todos os dias para me acostumar com o salto alto e, não sei como têm humana que conseguem usar salto todos os dias.


Quanto mais próximo o dia ficava, mais eu me sentia agitada e tudo somado, me tirou o sono. Passo horas acordada na esperança que Ariel apareça, ou planejando o que dizer para a minha missão, ou em frente ao espelho tentando fazer com que os músculos do meu rosto me obedeçam e eu consiga sorrir – sem sucesso nenhum. Apesar de todas as aulas com os anjos caídos e passar horas em frente ao espelho, nada me ajudava, tentar passar por uma humana está sendo mais difícil do que eu imaginei.


No dia do grande encontro, o dia que minha missão realmente começa, Apollo me deu o dia de folga, Arlene me levou a um salão de beleza. Não entendo como as humanas aguentam tudo aquilo, fui torturada naquele lugar!


Puxaram os meus cabelos, lavaram os meus cabelos, tentaram cortar os meus cabelos, lixaram as minhas unhas, tiraram peles das minhas unhas, pintaram as minhas unhas – pés e mãos. Fizeram-me entrar – de biquíni – em uma capsula, que jogou jatos em mim, o gosto era horrível, o jato machuca um pouco, mas prometeram que eu sairia de lá mais bronzeada. Não entendo qual é o problema com a minha cor, eu gosto da cor da minha pele, se essas pessoas me vissem em minha real forma, se assustariam com a brancura. Mas não vou negar, o resultado final é surpreendente, valeu ter sofrido tanto.


Assim que sai do meu quarto para encontrar Arlene e Apollo na sala, a conversa animada deles morreu quando ambos olharam para mim. O vestido de couro caiu como uma luva em meu corpo, deixando minhas curvas ainda mais sobressalentes, apesar de ser curto, ele é confortável. As botas altas, quase até os meus joelhos, dão um toque especial ao visual humana-chique-tenta-chamar-a-atenção-de-humano-alvo. Meus cabelos castanhos avermelhados estão soltos, caindo por todas as minhas costas – cobrindo as fitas que amarram o vestido – com leves cachos estrategicamente feitos lá no salão. Arlene fez uma leve maquiagem em mim, falando que iria realçar a cor dos meus olhos – cor de vinho tinto. Eu não sei o que realçar significa, mas confio em Arlene.


- O que? – Perguntei quando o silêncio ficou constrangedor. Olhei para o vestido na dúvida se realmente é uma boa ideia ir com ele.

- Você está... – Arlene começou a falar, mas não terminou a frase.

- Linda! – Apollo quase gritou. – Tem certeza que esse humano vale todo esse visual? Porque eu posso te fazer muito feliz minha pequena Angie, eu posso – Ele não terminou a frase, o som de um trovão o calou e, por mais incrível que possa parecer, deixou Apollo pálido e com os olhos arregalados.

 - Acho que vai chover. – Comentei me preocupando com a chuva que, provavelmente, arruinaria toda essa produção.

- É, certo. – Arlene falou com ironia. – Chuva sim. – Ela deu um tapa na cabeça de Apollo. – Só você pensa que o fato de Ariel ainda não ter aparecido, quer dizer que ele não esta de olho nela. Toma jeito, Apollo, Ariel não brincou quando te deu aquele aviso.

- Estava mais para promessa. – Apollo resmungou.

Fiquei surpresa quando – finalmente – entendi sobre o que eles estão falando.
- Ariel fez isso?


- Provavelmente. – Arlene respondeu. – O céu está limpo, não há uma nuvem se quer, dá até para ver as estrelas. – Ela me olhou. – Não precisa ser um gênio para saber que Ariel mandou um aviso para o nosso amigo, boca grande, aqui.


É o primeiro sinal de vida que Ariel me mandou em duas semanas. Toquei meu pingente do Chamado e fechei os olhos.

“Finalmente,” mandei telepaticamente para ele.


“Estou sempre aqui.” Ele respondeu, sua voz doce e melódica, me fazendo lembrar de todas as nossas conversas lá em casa.


Abri os olhos e olhei para o pingente, ele brilhava sua linda cor branca. Ariel está mesmo comigo essa noite. Isso me trouxe um novo sentimento humano; confiança. Agora com Ariel por perto tudo vai dar certo, talvez, ele sempre esteve por perto, eu que estou sendo humanizada demais para senti-lo ao meu redor. É possível que essa noite eu me sinta um pouco mais anja, do que humana e isso possibilitou que Ariel conseguisse entrar em contato comigo, me sinto em paz.


- Vamos? – Perguntei para os dois anjos caídos sentados no sofá.


Arlene e Apollo me olham fixo, não se mexem. Alvo de seus olhares é o meu pingente, me pergunto se eles conseguem ver a luz que brilhou quando Ariel falou comigo. Não tenho certeza, mas acho que detectei inveja nos olhares, entendi que, por mais que ambos digam que gostam de suas vidas humanas, eles sentem falta do que perderam ao cair. Não sei exatamente do que eles sentem falta, mas pelo jeito que olham para o meu pingente, acho que sentem falta de Ariel, não posso evitar de pensar que, se eu estivesse no lugar deles, também sentiria muita a falta de Ariel.


- Eu... hãn... – Eu não sei o que fazer para tirá-los desse transe. – Eu vou pegar a minha bolsa e podemos sair.


Me virei e fui para o meu quarto, enquanto andava para lá, ouvi eles comentarem.


- Ela fez isso mesmo? – Apollo sussurrou.

- Fez. – Arelene sussurrou de volta e suspirou. – Eu daria, quase, tudo para rever a luz do meu pingente novamente.

- Eu também. – Apollo respondeu.

Entrei em meu quarto e fechei a porta, decidi dar um tempo aqui ate que os anjos caídos de Ariel se recuperem, nunca mais quero ver a feia inveja nos olhos humanos, não quero. Fiquei parada no meu quarto ate que meu coração voltou ao ritmo normal, então peguei minha bolsa e sai.

- Vamos? – Apollo perguntou assim que reapareci na sala.

- Vamos. – Falei afirmando com a cabeça também. Fiquei mais tranquila quando vi que a inveja tinha ido embora de seus olhos, eles voltaram a ser, os humanos que um dia já foram anjos.